VIAGENS EM QUE O SOL É UM CINZENTO ESCURO COMO A NOITE
14.6.2024
caminhava pelo bairro alto, alto, lá em cima com o rio a perder-se de vista lá por baixo. as águas turvas, quase imóveis, um cinzento traiçoeiro e uma corrente que leva para fora do alcance o que quer que por lá calhe. as ruas gastas e enegrecidas pelo tempo, as paredes dos prédios a cair aos bocados… como uma qualquer história que se perde e se arruina ao sabor da memória. deambulava perdido, aqui e ali. luzes que piscam, o focar e desfocar de olhos cansados. as músicas confundem-se e os risos das pessoas à volta transformam-se em sons irritantes. desconcertantes. há gritos num beco ali perto. a chuva cai repentina, essa água que molha os rostos. não é chuva, são mil lágrimas que não param de correr e inundam as ruas. corro e desapareço. apanho um qualquer comboio quando por fim sinto o cansaço a pedir-me para parar. o meu corpo não é mais que um propósito vago que me faz continuar. e continuo. há dinheiro no bolso e compro um bilhete, quase tão sujo como o dinheiro inútil que trago comigo. adormeço agarrado à caixa. o tictac do metal a bater no metal e a encarrilhar que me faz avançar deixa-me confuso. a caixa vinha comigo, já não sei há quanto tempo a trago. pequena, cabe-me no bolso. do tamanho de um baralho de cartas. mas sem reis. muito menos rainhas. a meio do caminho abro-a. tiro de lá uma folha. fala-me de sonhos passados e medos recalcados. rasgo-a. não preciso dela. adormeço. acordo e estou em barcelona. o sol está a pôr-se e caminho ramblas abaixo, novamente perdido. há um mimo que finge não me ver passar. deito-lhe uma moeda e pisca-me o olho. fitamos-nos demoradamente. o mimo não fala e eu há muito que perdi o direito a usar palavras. gémeos sem alma, máscaras que escorregam só para deixar transparecer a seguinte. deixo cair outra moeda. a caixa é parecida à minha. mas maior, muito maior. enquanto a dele se enche a minha vai-se esvaziando. fujo dali e apanho um eléctrico velho. há uma música qualquer presente, que parece saída de uma daquelas caixinhas de música. a melodia é-me familiar mas não consigo descobrir de onde vem. abro a caixa. não há lá música nenhuma. tiro outra folha e leio-a. sorrisos. chego ao final e percebo que não faz sentido. o corpo estremece e aquece, o sangue palpita, vermelho usado como tinta. rasgo-a e vejo-a voar, para longe daqueles carris. barceloneta é já ali mas quando saio daquele rectângulo metálico não reconheço onde estou. os livros têm sempre mais cor do que a realidade. no cais há um barco, e um anão de vermelho segura uma placa que diz londres. compro um bilhete, só de ida, e embarco. dou por mim a navegar ao leme, qual louco de ideias vincadas sem saber para onde ir. estou sozinho neste barco. a custo chego à costa e caminho durante semanas. perdido. alucinações e miragens caminham comigo de mãos dadas. o principezinho sorri-me lá ao fundo. está em cima de uma bola. não, um planeta. a casa dele. os cabelos parecem o sol mas ele também está sozinho. sou uma raposa sem tempo. chego. a cidade não tem cor e eu esqueço-me do que é isso. branco, branco sujo, cinzento claro, escuro e preto. oh, são tantas as cores que me oferecem aqui. as pessoas não falam e parecemos todos uns fantoches de ferro, com um gancho a prender as costas, e seguimos em fila indiana atrás uns dos outros. stop, páro num pub com o letreiro a piscar. jeff buckley canta a sua versão de hallelujah e fico por lá. fico até de manhã e acordo. o jeff está morto e tudo ali à volta são fantasmas. a música não me sai da cabeça e diz-me que a fé é forte mas preciso de provas. que provas, se tudo ali à volta não tem vida. a beleza dos diferentes cinzentos dá-me calafrios. acordo de novo. sonhos dentro de sonhos. dizem-me que já não dá. mas não sei se ouvi isto no primeiro, no segundo ou agora. hallelujah, alguém canta. apanho um táxi e deixo-me ir. mas não vou a lado nenhum… desço rua abaixo até àquele rio cinzento. os barcos seguem os seus trajectos, mil quadradinhos de vidro, a luz do sol espelhada, borregas na água que fazem lembrar as paredes caiadas de branco da cidade que deixo. atiro-me ao rio. fico a boiar, a caixa a afundar. a última folha vem-me parar à mão. agarram-me e tiram-me da água. não me deixam ler. ninguém me deixa ver.