GONÇALO NASCIMENTO 
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NO HAY BANDA (texto vencedor no concurso nacional de escrita criativa)
14.6.2024

Já só faltam trinta para os trinta. Em meia hora atinjo aquele número redondo, quase perfeito. Desconfio. Cedo de mais para ser adulto, tarde de mais para ser criança: cobram-nos a toda a hora.        

É 1h30 e já não penso nisso. Retoco o batom, rímel no máximo. As faces estão rosadas e o cabelo está incrível. Sinto os gémeos: musculados, delicados. Esta mini-saia não perdoa e avanço. Finalmente é finalmente e o Finalmente abre-se para mim afinal. A casa está a abarrotar. Vejo 300 homens com o sangue a chicotear o pescoço e contenho o arrepio. As luzes apagam-se e o palco pertence-me. Respiro fundo… agarro o microfone com as duas mãos, o rosa-choque das unhas imaculado. Calco o chão com o salto. As luzes, quentes, crescem e entrego-me a um careless whisper na perfeição. Estranho como todos vibram com uma mulher assim, a cantar-lhes assim, a deixá-los assim. Como se gostassem de mim, assim. A vida é estranha, as pessoas confusas. Mas aqui, bem… aqui, e no meio de todo este clímax distorcido e mascarado, ninguém parece ter dúvidas. A música está perto do final, o ponto alto da noite a chamar. Deixo-me cair no chão, qual ninfa desmaiada. Inerte. A música continua, aquela voz inesquecível não pára. No hay banda! Il n’est pas de orquestra! É tudo uma ilusão, nesta homenagem cruel e diária que prestamos. A multidão entra num frenesim sincero, os últimos acordes tocam. Já ninguém quer saber de mim. As luzes apagam e retiro-me.

É fim de tarde e olho-me ao espelho. O banho limpou as impurezas, somente para voltar a pintar-me e a sujar-me a seguir. A sombra, qual cinza das cinzas, ameaça a minha cara e barbeio-me agilmente. As pernas, essas, aguentam mais uma semana. A perfeição requer perfeição. Método, perfeccionistas! Encontro-me assim, confuso e confusa em mim mesmo. 

De dia sou homem.
De noite sou mulher.
Eu sou aquilo que quero ser.