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NO HAY BANDA (texto vencedor no concurso nacional de escrita criativa)
É 1h30 e já não penso nisso. Retoco o batom, rímel no máximo. As faces estão rosadas e o cabelo está incrível. Sinto os gémeos: musculados, delicados. Esta mini-saia não perdoa e avanço. Finalmente é finalmente e o Finalmente abre-se para mim afinal. A casa está a abarrotar. Vejo 300 homens com o sangue a chicotear o pescoço e contenho o arrepio. As luzes apagam-se e o palco pertence-me. Respiro fundo… agarro o microfone com as duas mãos, o rosa-choque das unhas imaculado. Calco o chão com o salto. As luzes, quentes, crescem e entrego-me a um careless whisper na perfeição. Estranho como todos vibram com uma mulher assim, a cantar-lhes assim, a deixá-los assim. Como se gostassem de mim, assim. A vida é estranha, as pessoas confusas. Mas aqui, bem… aqui, e no meio de todo este clímax distorcido e mascarado, ninguém parece ter dúvidas. A música está perto do final, o ponto alto da noite a chamar. Deixo-me cair no chão, qual ninfa desmaiada. Inerte. A música continua, aquela voz inesquecível não pára. No hay banda! Il n’est pas de orquestra! É tudo uma ilusão, nesta homenagem cruel e diária que prestamos. A multidão entra num frenesim sincero, os últimos acordes tocam. Já ninguém quer saber de mim. As luzes apagam e retiro-me.
É fim de tarde e olho-me ao espelho. O banho limpou as impurezas, somente para voltar a pintar-me e a sujar-me a seguir. A sombra, qual cinza das cinzas, ameaça a minha cara e barbeio-me agilmente. As pernas, essas, aguentam mais uma semana. A perfeição requer perfeição. Método, perfeccionistas! Encontro-me assim, confuso e confusa em mim mesmo.
De dia sou homem.
De noite sou mulher.
Eu sou aquilo que quero ser.