GONÇALO NASCIMENTO 
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NEVOEIRO A SUL
14.6.2024

I

O ruído, ao longe, roça-me o ouvido. Não sei se é vento, não sei se é tempo. Tempo. Que tempo de merda, este. Rodo a cabeça à direita, olho a janela. As folhas amarelas das árvores baloiçam lá fora. E este baloiçar triste e meio efémero, de quem muito dança preso por arames, só torna este dia ainda mais cor de chumbo. Amanhã devem estar metade das folhas, presas. E depois de amanhã… bom, depois de amanhã tudo acaba.

II

Atrás, à esquerda, a roupa rodopia. Roda, roda, roda, molhada, encharcada. O tambor mastiga, neste cenário metálico e circular. Este vai-não-vai de sessenta minutos. Vestir para sujar para lavar. Vestir para sujar para, depois, lavar. E assim, repetidamente. É o ciclo da vida. Cru. Nascemos, crescemos, erramos. Nem sempre renascemos. São 13h e ainda não comi.

A vida em Lisboa tem sido solitária. E o fado sempre andou de mãos dadas com a solidão. O acordar comigo ao lado, as refeições partilhadas com ninguém, o vinho a fazer-me companhia, o desejar boas noites ao ar. Silêncio. Acostumei-me, mas existe sempre um turbilhão adormecido. Fora de casa são os cafés e os cigarros, as pessoas a passarem na rua, o Sr. Manuel do bar. A agitação da Garrett e os cheiros da Rosa e da Barroca. O ouro em luz do final de tarde, nesta calçada lisboeta polida pelo tempo. O tempo. As paredes brancas, sujas e velhas da cidade. O seco da noite, a garganta seca depois de mais um copo.

Acordei, já era tarde. São 14h agora e ainda não comi. Os passos lá fora. Calmos. Irregulares. A senhora que caminha apressada, mas devagar, com meia dúzia de batatas num saco, bolachas, o xaile. O preto vestido, assentando como um fardo que a própria tradição acarreta a quem o transporta. O primeiro cigarro do dia, já sentado na mesa da sala, computador ligado. Este magnetismo da luz do ecrã a queimar-me invisivelmente os olhos. Quase não deixa ver. As teclas, que desde pequeno me fascinam, escrevinhando letras soltas na máquina de escrever, antiga, do meu pai. O almoço, feio, feito num micro-ondas mecânico, doente. A escrita nunca me sai antes do café da tarde, o primeiro. A barba por fazer, pasta dos dentes, água na cara. Visto umas calças de ganga preta, o cheiro de tabaco entranhado no amaciador de ontem. A rua. O ar de Lisboa sempre me deu vida. Sentado, o Chiado, as árvores, os táxis, as pessoas. Duas caras reconhecidas por cada duzentas que observo. O café chega, quente, escuro, a espuma e o copo de água. E aqui fico mais umas horas. À mesa, o fumo a sair-me por entre os dedos, a noite a levar o dia e o bloco de notas. Escrevo qualquer coisa. Escrevo sempre qualquer coisa.

III

É perto do fim de ano e a motivação roça o asfalto. Os meus ténis, brancos e usados, pisam-no, mas não me faz confusão. É como se todo o peso dessa falta, e do arrepio do fracasso à esquina, pouco fosse notado. Ontem foi Natal. Famílias inteiras à mesa e viagens sem fim para a reunião anual, mesmo que não se vejam os outros trezentos e sessenta e quatro dias e o telefone toque cinco vezes. É uma alegria. Jantei sozinho, adormeci cedo. Acredito que o Bruce Willis saltava de um prédio em chamas. Podia jurar. Mais uns dias e são os fogos de artifício e os vomitados na calçada ao alvorecer. E depois vem janeiro: o mais longo e mais triste mês, dizem. O tempo é lento, o sol tímido, talvez pela angústia, o dinheiro não chega. Novas resoluções, ingénuas superstições.

São 05h40 e as águas do Tejo estão em paz. Nem o frio gélido e a, ainda, noite têm argumentos para reduzir este cenário. A verdade, em forma de segredo, é que questiono-me sempre o que este rio e o que o oceano, onde ele se aninha, têm reservado para mim. Sinto tantas vezes esta presença, qual chamamento, voz, toque. Talvez as Tágides. Quiçá.