GONÇALO NASCIMENTO 
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DESERTO DE FERRO
14.6.2024

estava um cinzento baço no céu. uma neblina húmida a molhar-me os olhos, e depois a cara.  caminhei durante não sei quanto tempo. as ruas estavam desertas. sem pessoas, sem carros, sem ruídos. algumas luzes de velhos candeeiros ainda tremiam. mas tudo estava deserto. o pontão gasto esperava por mim ao fundo e o velho campolide embalava com o embalar próprio das ondas do mar. bilhete usado, bilhete guardado no bolso, e o velho barco, um double-decker de ferro e ferrugem branco e laranja com mil janelinhas para espreitar a água esperava por mim, cansado. o trajecto lento e perpétuo, as borregas brancas e soltas, como o branco perdido das paredes tristes e velhas da cidade lá ao fundo. uma gaivota sobrevoava o metal, talvez com medo de ser tarde para voltar para trás. a apanhar a boleia, deixa ver onde este barco me vai levar. aqui tenho pé, se precisar descansar. o campolide atraca no sodré e saio, sozinho. deserto, com luzes trémulas e o claro do dia a aparecer. fujo do deserto para a confusão, mas na confusão acho-me deserto.